Grande trabalho é querer fazer
alegre rosto quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta
tinta; que a Lua recebe a claridade do Sol, e o rosto, do coração. Nada dá quem
não dá honra no que dá: não tem que agradecer quem, no que recebe, a não
recebe; porque bem comprado vai o que com ela se compra. Nada se dá de graça o
que se pede muito. Está certo! Quem não tem uma vida tem muitas. Onde a razão
se governa pela vontade, há muito que praguejar, e pouco que louvar. Nenhuma
coisa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram,
podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este
purgatório a que chamais honra; donde muitas vezes os homens cuidam que a
ganham, aí a perdem. Onde há inveja, não há amizade; nem a pode haver em
desigual conversação. Bem mereceu o engano quem creu mais o que lhe dizem que o
que viu. Agora, ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem
mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene
en el cuerpo, que le duele. Ora temperai-me lá esta gaita, que nem assim, nem
assim achareis meio real de descanso nesta vida; ela nos trata somente como
alheios de si, e com razão:
Pois somente nos é dada
para que ganhemos nela
o que sabemos.
Se se gasta mal gastada,
juntamente com perdê-la,
nos perdemos.
Enfim, esta minha Senhora, sendo a cousa por que mais
fazemos, é a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão
breve é,
ponderemos e vejamos
que ganhamos em viver
os que nascemos:
veremos que não ganhamos
senão algum bem fazer,
se o fazemos.
E, por isso, respeitando
que o porvir tal será,
entesouremos ;
porque [ao certo] não sabemos
quando a morte pedirá
que lhe paguemos.
Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a
morte; sendo mais aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a
virtude. Mas, contudo, com seu pensamento, quando lhe vem à vontade, acarreta
mil pensamentos vãos; que tudo para com ela é um lume de palhas. Nenhuma cousa
me enche tanto as medidas para com estes que vivem na maior bonança, como ela;
porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os
corpos à costa; e se vem à mão, com as almas no inferno, que é bem ruim
gasalhado:
E pois todos isto temos,
não nos engane a riqueza,
por que tanto esmorecemos,
e trás que vamos;
já que temos a certeza
que, quando mais a queremos, a deixamos.
Gastamos em alcançá-la
a vida; e quando queremos
usar dela,
nos tira a morte lográ-la;
assim que a Deus perdemos
e a ela.
Luís Vaz de Camões, in "Cartas"
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